É mais
fácil dizer o que
não foi a religião grega. Baldada será a tentativa do estudioso de classificá-la,
porque difere marcadamente de quase todas as crenças mais conhecidas.
Logo ao começo teria a
surpresa da descoberta de que os gregos não possuíram escritos sagrados. Procuraria em
vão dogmas, doutrinas e credos. A religião é mencionada nos antigos escritos. Toda
página de Homero contém referências aos deuses, mas sua obra não pode ser considerada
a bíblia grega.
Não tiveram escrituras
sagradas nem grandes revelações aos homens dos desejos dos deuses. Reinava pasmosa
familiaridade. Eram freqüentes as conversações entre deuses e homens, e nada raro o
mortal queixar-se da divindade por haver faltado a promessas ou mesmo agido
incorretamente. A literatura grega está repleta de relatos dos amores entre homens e
deuses, dos deuses com mulheres terrenas.
Embora politeísta a
religião grega, seu politeísmo era caracteristicamente antropomorfo. De permeio com este
politeísmo existiam sobrevivências de religião ainda mais primitiva fetichismo,
animismo e, até, traços de totemismo. Mais ainda; pois, no interior e ao lado de
formosos templos cujas linhas artísticas revelam alta cultura, se encontravam imagens
grosseiras, pouco mais que blocos de madeiras, os quais eram adorados com toda devoção.
Estátua muito antiga duma deusa, do próprio Partenão , comparava-se aos ídolos mais
toscos de tribos africanas.
As estátuas dos deuses
evolveram de pedras primitivas e blocos de madeiras, através de período caracterizado, a
princípio, por figuras humanas mal talhadas, angulares, pouco a pouco aperfeiçoadas,
até fase muito posterior, em que a imagem dum Deus se transformou simplesmente em belo
tipo de homem.
As crenças místicas
surgiram cedo na religião grega. Na maior parte foram importadas dos países
circunvizinhos, porém, melhoradas pelos gregos. Os mistérios dionisianos, mitraicos,
eleusinianos e órficos eram celebrados em ritos cujas melhores partes foram aproveitadas
mais tarde nas cerimônias cristãs.
A religião dos gregos
estava ligada intimamente à vida literária e artística. Segundo Aristóteles, os coros
fálicos do culto do Dionísio inspiraram as grandes comédias gregas.
A feição oracular da
adivinhação é o produto popular da religião grega. Mercê de sinais como o sussurro
das folhas de árvores sagradas, o murmúrio de sacerdotisas em transe, ou pelos sonhos de
pessoas adormecidas sob árvores sagradas, supunham descobrir a vontade divina.
Os oráculos mais famosos
foram o do carvalho sagrado de Dodona onde, segundo se dizia, falava Zeus, e o de Delfos,
consagrado a Apolo. Avesta, a sacerdotisa, chamada Pítia, submetia-se a complicado
cerimonial, que consistia em banhar-se, beber água sagrada, mastigar folhas de louro, em
seguida sentar-se numa trípode colocada sobre uma abertura donde se exalavam vapores. Na
exaltação produzida por tais operações, a Pítia pronunciava palavras quase
ininteligíveis, que os sacerdotes poetizavam e transmitiam aos consulentes como
declarações da vontade de Apolo.
Mais tarde a religião grega
foi suplantada pela filosofia, a qual se desenvolvera por tal forma e praticamente, a
ponto de transformar-se em religião ou, pelo menos, em regras de vida integra.
Não se encontra, todavia,
em único profeta em toda a história grega. A religião conservou-se até bem mais tarde
uma mistura estranha de animismo e politeísmo. Quando lemos em
Platão a descrição das últimas horas de Sócrates, passamos a encontrar, em meio de
considerações filosóficas, o seu pedido a um amigo de sacrificar um galo a Esculápio.
|