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Se Torne um
Voluntário com Profissionalismo
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V O L U N T A R I A D O - A NOVA CAUSA MUNDIAL |
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Material baseado no caderno especial de voluntariado publicado pela Folha de São Paulo Ajudar os outros sem esperar remuneração material é uma atividade antiga. A organização desse tipo de trabalho também não é novidade: as Santas Casas de Misericórdia nasceram no século 15, e a Cruz Vermelha foi fundada em 1863. O Greenpeace, a Anistia Internacional e o Programa de Voluntários da Organização das Nações Unidas existem há 30 anos. A iniciativa da ONU de declarar o Ano Internacional do Voluntário em 2001 oficializa não tanto esta atividade secular, mas uma nova forma de associação. O voluntariado contemporâneo fundamenta-se numa compreensão inédita de cidadania, em que ações sociais são organizadas segundo regras de eficiência típica da gestão empresarial e em numerosos grupos que pipocam por todo o mundo e, na maioria das vezes, não têm relação uns com os outros. Segundo o pesquisador norte-americano Lester Salamon, a novidade do voluntariado está "no surgimento de mecanismos organizados privados para reagir a problemas sociais, ambientais e de desenvolvimento". Para Milú Villela, presidente do Centro de Voluntariado de São Paulo e do Comitê Brasileiro para o Ano Internacional do Voluntário, "a ONU quer que se abandone a era do ter e se passe para a do ser e fazer." Henri Valot, coordenador da equipe da ONU para o Ano Internacional do Voluntário, diz que a imagem "caduca e caritativa do voluntário está sendo substituída por uma militância, realizada por convicções pessoais e éticas". O desafio é entender por que essa prática revigora-se justamente agora. Não há respostas fáceis. Nem mesmo a tão mencionada falência do Estado de Bem-Estar Social é capaz de explicar o fenômeno. Os Estados que mais financiam as organizações não-governamentais (ONGs) são aqueles onde é mais forte o terceiro setor formado por entidades que não fazem parte nem do poder público nem da iniciativa privada. No Brasil, o número de voluntários cresceu 42% em dois anos. Projetos comunitários influenciam cada vez mais políticas públicas. Faltam, contudo, voluntários qualificados, e as atividades de ONGs concentram-se nas regiões ricas, herdando as distorções sociais do país. SAIBA COMO E ONDE TRABALHAR
A escolha da instituição Trabalhar em entidades próximas ajuda a criar vínculos com a comunidade e a acompanhar de perto os resultados; já quem trabalha em locais distantes tem contato com outras realidades.
A escolha do Trabalho As entidades preferem voluntários que trabalhem na sua área, mas também é possível fazer algo diferente, seja para retomar uma vocação abandonada ou ter uma experiência nova.
O treinamento e a preparação Antes de começar, normalmente o voluntário recebe um treinamento da instituição ou participa de palestras para se adequar ao trabalho social. CENTRAIS INFORMAM SOBRE ENTIDADES No País Centro de Voluntariado (informa quais entidades atuam em cada cidade): 0800-111814 No Sudeste SP Centro de Voluntariado de São Paulo (www.voluntariado.org.br): RJ RioVoluntáRio (www.riovoluntario.org.br): 0xx 21 262-1110 MG Central de articulação e Promoção do Voluntariado de Minas Gerais: No Centro-Oeste DF Voluntários Candangos (www.voluntarios.org.br): No Sul RS Parceiros Voluntários: 0xx 51 227-5819 SC Instituto Voluntários em Ação de Santa Catarina: 0xx 48 222-1299 PR Centro de Ação Voluntária de Curitiba (www.acaovoluntaria.com.br): No Nordeste BA Centro de Voluntários Bahia: 0xx 71 322-9953 ou 322-1867 CE Centro Ceará Voluntários (www.secrel.com.br/ccv): 0xx 85 244-7225 PE Recife Voluntário (www.voluntario.org.br): 0xx 81 3221-7151 ou 3221-6911 Na Internet Entidades: www.eDeus.org Portal do Voluntário: www.portaldovoluntario.org.br Portal do terceiro setor: www.filantropia.org.br Programa Voluntários: www.programavoluntario.org.br Abong (Associação Brasileira de Associações Não
Governamentais): Rits (Rede de Informações para o Terceiro Setor): www.rits.org.br Gife (Grupo de Institutos,Fundações e Empresas): www.uol.com.br/gife INVESTIGUE ANTES DE AJUDAR
Entidades buscam voluntário qualificado "Precisa-se de voluntários com diploma. Profissionais liberais, das áreas de ciências humanas e sociais, advogados, professores, educadores, médicos e enfermeiros terão preferência." Improvável de ser encontrado em qualquer seção de classificados, o anúncio fictício ilustra um dos desafios das ONGs que contam com voluntariado hoje no Brasil: a necessidade crescente de participantes qualificados em seus programas. "As ONGs não conseguirão chegar lá (crescer e se desenvolver) se não qualificarem seus quadros", afirma a coordenadora geral do Centro de Voluntariado de São Paulo, Adelaide Barbosa Fonseca, 45. "A entidade, para captar financiamentos e sobreviver, precisa mostrar resultados, provar competência, e nisso o voluntário qualificado pode ajudar." Segundo Mônica Corullón, que coordenou o Programa Voluntário do Comunidade Solidária nos últimos quatro anos, o perfil do trabalhador voluntário vem mudando, assim como a demanda das entidades. "As ações se diversificam e se especializam, e a qualificação tornou-se crucial", declara Mônica. "Aquele estereótipo, de décadas passadas, de aposentados que queriam preencher seu tempo ocioso ou donas-de-casa ricas entediadas já passou", diz Adelaide, do Centro de Voluntariado de São Paulo. As coordenadoras afirmam, no entanto, que isso não desqualifica nem exclui as ocupações voluntárias ditas tradicionais. Também cresce a procura por pessoas que possam ajudar na infra-estrutura, administração e limpeza de instituições. A necessidades por contadores de histórias em asilos e hospitais, ajudantes de cozinha, organizadores de arquivos, "mães de colo" não vai desaparecer, avaliam. "Mas mesmo nessas áreas, as ONGs estão capacitando pessoal, para qualificar o trabalho", afirma Adelaide. Em busca no site www.portalvoluntario.org.br, que cadastra voluntários e entidades, vê-se a disputa pelos "voluntários com diploma". Para professor, aparecem 19 páginas de entidades à procura de pelo menos um. Para médico, são 12; psicólogo,11. Nem pagando Nas regiões distantes dos grandes centros, a situação é mais dramática."A gente conta com ajuda de quem puder cumprir as funções, mesmo sem formação", diz o coordenador da ONG Oficina Escola de Luteria da Amazônia, Rubens Gomes, 42."Nem pagando, conseguimos trazer alguns profissionais", declara. Desde o ano passado Gomes, corre atrás, sem sucesso, de profissionais com pedagogos, sociólogos e antropólogos. A oficina ensina a 76 jovens carentes de 14 a 21 anos de Manaus o ofício da luteria (confecção de instrumentos musicais de corda dedilhados vilão, viola, cavaquinho). Em Boa Vista do Ramos (300 km a leste de Manaus), Gomes assessora comunidades de ribeirinhos que constroem objetos, como caixas, porta-lápis e pequenos baús, com resto de madeira certificada (ambientalmente correta, extraída de áreas de manejo florestal sem causar desmatamento). "Artesãos e engenheiros florestais nós temos, mas o pessoal da área de educação e ciências sociais é muito difícil", diz Gomes, que conta com 12 funcionários e três voluntários. Os educadores do projeto estariam acompanhando os estudantes, e os cientistas sociais fariam a articulação com as comunidades. Mais de 200 ribeirinhos trabalham com a madeira em Boa Vista do Ramos. "Poderíamos crescer, mas o envolvimento da comunidade é muito lento. Sem profissionais da área, caminhamos devagar", declara Gomes. Ele afirma que já viu outros projetos definharem porque as ONGs não conseguiram a adesão da comunidade. "Eventualmente, impomos nossas vontades, com nossa visão do problema, que muitas vezes não tem nada a ver com os desejos do caboclo." Aí entrariam os cientistas sociais, que poderiam fazer um diagnóstico das comunidades, com adequação da realidade social e maior facilidade para identificar os anseios. A 1.200 quilômetros dali, em Belém, a ONG Nova Vida, centro de referência em recuperação de dependentes de drogas e álcool, atende 20 jovens, poderia dobrar as vagas, mas precisa de voluntários especializados. "A mão-de-obra é nosso maior problema", conta Luiz Augusto Veiga, 56, o presidente-voluntário."O pessoal de infra-estrutura e limpeza nós temos. Até os professores de educação física são voluntários, mas precisamos de mais psicólogos e assistentes sociais." Segundo ele, com os baixos salários pagos na região, os profissionais acumulam até quatro empregos e não sobra tempo para o voluntariado. Com um quadro de 93 funcionários e mais de cem voluntários, a Fundação Terra, em Arcoverde, no sertão pernambucano (240 km a oeste de Recife), comparada à Nova Vida e à oficina de Manaus, poderia dizer que vai bem, obrigado, porque conta com advogados, professores, psicólogos e até agrotécnicos voluntários. Mas a chamada rua do lixo, onde vivem centenas de pessoas ao lado do lixão da cidade, mostra que há muito ainda por fazer. "Não conseguimos envolver os pais, estamos tentando implantar projetos de geração de renda para que saiam do lixão ou consigam montar uma espécie de oficina de reciclagem", diz Luciano Joventino de Lima, 33, coordenador da Fundação Terra. A Fundação mantém uma creche para 130 crianças de até 6 anos, um curso agrotécnico para 40 adolescentes e acompanhamento pré-natal de 40 gestantes."Para expandir precisamos de assistentes sociais", afirma Lima. No Brasil, pesquisa nacional do Iser (Instituto de Estudos da Religião), com amostragem de 1.200 questionários no país, divulgada em dezembro passado e coordenada pela antropóloga Leilah Landim e pela socióloga Maria Celi Scalon, aponta que 23% das pessoas com mais de 18 anos fazem algum tipo de voluntariado. Mas o serviço especializado ou qualificado corresponde a apenas um terço dessa mão-de-obra e se dedica a trabalhos de escritório, administração, lazer, cultura, serviços profissionais, psicológicos, cuidados pessoais, ensino, treinamento, meio ambiente e captação de recursos. Limpeza e infra-estrutura correspondem a 54% dos voluntários, e 11% se dedicam a atividades religiosas. Um dado otimista que salta da pesquisa é que 60% dos entrevistados disseram estar dispostos a trabalhar como voluntários se soubessem onde poderiam ajudar; e 87% concordam que o "trabalho voluntário faz parte da cidadania e ajuda a construir uma sociedade melhor". Para quem não sabe por onde começar, o Comunidade Solidária iniciou, há quatro anos, a implantação de centros de voluntariado pelo país, que funcionam como agências de matrimônio, unindo o profissional que se oferece à ONG que o procura. Hoje são 35 centros no país, em quase todas as capitais e nas principais cidades do interior. Cada um deles é uma ONG independente, sem vínculo hierárquico com o Comunidade Solidária, com administração e financiamento próprios. SIGA OS PASSOS PARA CRIAR SUA ONG
Informações na Internet Ministério da Justiça: www.mj.gov.br (legislação sobre concessão do Título de Utilidade Pública Federal ou de Oscip; clique em "Serviços") Conselho Nacional de Assistência Social: www.mpas.gov.br/01_01_01_02_05.htm (registro no CNAS) ou www.mpas.gov.br/01_01_02_06.htm (Certificado de Entidade de Fins Filantrópicos) Comunidade Solidária: www.comunidadesolidaria.org.br (download de cartilha sobre Oscip, com legislação do setor) Abong: www.abong.org.br (clique em "Biblioteca" e consulte artigos e leis do setor) Rits: www.rits.org.br (legislação e artigos sobre criação de ONGs)
O ANO INTERNACIONAL DO VOLUNTÁRIO
TESTE SUA VOCAÇÃO DE VOLUNTÁRIO Escolha apenas uma alternativa e veja abaixo o total de pontos
Obs.: Este teste foi elaborado por Francisco de Assis da Silva Pinto, psicoterapeuta corporal da Associação Viva e Deixe Viver, que usa voluntários para contar histórias a crianças doentes. "O teste é só indicativo. Mesmo se a pessoa não obtiver uma pontuação adequada, não significa que ela não deva fazer nenhum trabalho voluntário. Existem várias formas de ajudar", diz VOLUNTERAPIA ALIVIA PROBLEMAS PESSOAIS O trabalho voluntário parece ter se tornado uma espécie de "toma-lá-dá-cá" existencial, ainda que inconsciente: quem ajuda também é ajudado, porque recebe em troca uma satisfação poucas vezes obtida em outra atividade profissional. Seria, então, uma espécie de volunterapia? Há oito meses, a bióloga Sandra Souza, 39, estava se separando e vivia uma crise pessoal e profissional. Quando deixou a biologia para se dedicar à área de vendas, sentia falta da parte que lhe agradava na profissão, o ensino. Foi no trabalho como voluntária no Projeto Aprendiz, uma ONG de auxílio a menores carentes, que encontrou o estímulo de que necessitava. Sandra dedicava e continua dedicando três horas de sua semana a dar acompanhamento escolar a crianças com dificuldade de aprendizado. Naquela época, ajudava o menino Wellington, que, aos 9 anos, ainda não sabia ler nem escrever. "Eu estava emocionalmente muito desestabilizada e esse trabalho era a coisa mais legal da minha semana, era o que levantava meu astral", conta Sandra. "Tentei achar coisas do interesse dele, revistinhas com Pokémon, histórias sobre futebol. Ele não saiu de lá sabendo ler perfeitamente, mas saiu com mais confiança, se tornou mais responsável." Segundo Sandra, o trabalho como voluntária não foi o que a "salvou" de sua crise, mas era o que lhe dava força naquele momento. "Poder ser útil é bom para quem recebe, mas também é bom para quem faz", diz o psicanalista Leopoldo Nosek."A saúde não esta em ser gostado, mas em gostar." Nosek, no entanto, adverte: "Se uma pessoa estiver com problemas, qualquer coisa que faça será ruim. Fazer trabalho voluntário para passar o tempo, para estar bem consigo mesmo ou com Deus, é coisa que não recomendo. Não dá para fazer coisas para o outro estando centrado em si mesmo." Até por isso, Sandra recusou, na mesma época, um trabalho voluntário de ajuda a crianças com Aids."Ficaria mais deprimida", diz. Já o piloto de aviões Fernando Amado, 36, decidiu encarar justamente esse desafio. Há três anos dedica duas horas por semana, quando suas escalas de vôo permitem, a contar histórias a meninos contaminados pelo HIV no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo. "Seus valores mudam, o que acha que é certo, o que é errado.Desde que comecei com o trabalho voluntário, fico me sentindo um palhaço quando reclamo de trabalho, de namorada", diz Fernando, separado e sem filhos. "Mas é preciso ter uma basezinha, se não você sai de lá arrasado. Já saí chorando muito. Por outro lado, se você tem uma estrutura, vê que está ajudando da mesma maneira que ajuda." "Acho que o tipo de atividade que a gente faz acreditando no resultado ajuda o indivíduo a se sentir necessário, e a gente só consegue viver bem se acha que tem utilidade no mundo", diz a psicanalista Anna Verônica Mautner, sem fixar diferenças entre trabalho voluntário ou remunerado a diferença, para ela, é que no primeiro é possível escolher o que se vai fazer. Segundo Anna Verônica, é preciso ter cuidado: embora seja uma atividade que faz as pessoas se sentirem melhor, indivíduos com problemas emocionais sérios não vão encontrar no voluntariado uma terapia. "Isso não vai resolver uma doença mental grave.Aliás, se alguém estiver doente de verdade nem vai querer ser voluntário." |
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